terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Reflexões sobre as Bodas do Cordeiro com a Igreja

Vamos ao tema de esposa ou noiva no NT. Esse tema está  baseado em algumas figuras representadas no NT acerca da igreja. Figuras essas sobre fatos que realmente aconteciam em meio ao povo de Israel. Figuras como o casamento e as festas que se davam logo em seguida a esse casamento. As bodas ( casamento) são  retratadas tanto no AT quanto no NT. Textos do AT que retratam Israel como noiva de Deus pode-se citar:  Is 25.6; Os 2.16-19; Is 54.5; 49.18; 61.10; 62.5; Jr 31.32.  Textos que falam sobre casamento em relação  à  igreja ou não ( Obs: nesse aspecto estou considerando os textos dos evangelhos, que não  se referem à igreja de forma alguma [ essa observação é para evitar críticas  desnecessárias ]), pode-se citar: Mt 22.1-14; 25.1-13; Mc 2.19,20; Jo 3.29; 2Co 11.2;Ef 5.25-27; Ap 19.1-9.

Para entendermos a simbologia que o NT faz das bodas (casamento) é  necessário  entendermos como se dava o casamento tradicional dos judeus. Se não fizermos isso vamos falar as maiores mancadas  ou baboseiras interpretativas sobre os textos desse assunto.

"O noivado hebreu  é seguido pela cerimô­nia nupcial. O rito de noivado une a noiva e o noivo numa relação em que envolve promessa recíproca -  relação que é selada na presença de testemunhas. Paulo escreve que prometia a igreja de Corinto, como uma virgem pura, a seu esposo, Cristo (2Co 11.2). O Novo Testamento apresenta Cristo como o noivo e a Igreja como sua noiva. Igualmente, o Antigo Testamento menciona uma relação semelhante entre Deus e seu povo (Is 54.5, 6; 62.5; Jr 3.20; Os 2.19).Em um cenário hebreu, havia um período de espera entre o noivado e as bodas, enquanto a noiva e o noivo viviam separadamente (Dt 22.23, 24; Mt 1.18, 19). Durante esse período, as duas famílias envolvidas dispunham os termos do dote. Quando essa soma era paga é que pro­cediam com as bodas reais. Nesse dia, o noivo, em procissão, acompa­nhado por seus amigos, trazia a noiva de seu lar paterno para seu pró­prio lar. Ali se promovia a festa nupcial para celebrar as bodas. William Hendriksen apresenta uma breve encenação dessa seqüência nupcial quando a aplica a Cristo e sua igreja.

Em Cristo, a noiva foi eleita desde a eternidade. Ao longo de toda a antiga dispensação, as bodas foram anunciadas. Em seguida, o Filho de Deus assumiu nossa carne e sangue: os noivados se concretizaram. O preço - o dote - foi pago no Calvário. E agora, depois de um intervalo, que aos olhos de Deus não passa de pouco tempo, o Noivo regressa e “chegaram as bodas do Cordeiro”. A Igreja na terra anela por esse momento, como faz a Igreja no céu." (Simon Kistemaker)

O casamento do oriente médio  dos tempos do NT era constituído de três partes. São eles: o noivado, a apresentação  e o casamento propriamente dito.

Antes do noivado era feito um contrato no qual se estabelecia o dote a ser  pago (Gn 31.15). Esse dote poderia ser em forma de serviço ( Gn 29.18) ou eliminação  de inimigos ( 1 Sm 18.25).

As exigências para os noivos nesse tempo eram sobremodo diferentes  do noivado da sociedade contemporânea. Caso um homem estivesse noivo de uma mulher ele poderia ser dispensado do serviço militar e, no caso de estupro de uma noiva de outro homem, o estuprador não poderia se casar com a mesma  porque ela já estava comprometida ( Dt 20.7 e Dt 22.28,29 respectivamente). O noivado só  poderia ser dissolvido por meio de um divórcio. Por esses motivos o noivado tinha a mesma importância  de um casamento propriamente dito. Mas ainda há diferenças sobre eles que justificam a não  utilização de ambos os termos como sinônimo. É  verdade que a sua importância  e as suas exigências são  as mesmas. Mas o que acontece com a noiva no casamento não acontecia com a noiva no "noivado".

Após o noivado ( que durava em média 12 meses) acontecia o que alguns chamam de "apresentação". Essa apresentação era a procissão no fim do dia. Nessa etapa o noivo saia de sua casa em direção  à casa de sua noiva. Isso poderia acontecer por meio do pai do noivo ou pelo noivo. Após  esse ínterim, o noivo levava a noiva para o seu lar ou o lar de seu pai. Na casa do pai acontecia o CASAMENTO ( que é  a união física entre noivo e noiva, coisa que na etapa do "noivado" não acontecia, por isso é  mais apropriado chamá-los de noivos, nessa etapa, do que chamá-los de esposo e esposa). 

As bodas duravam 7 dias ou mais (Jz 14.12). Seguia-se às  bodas a celebração dessas bodas.  Essa celebração constituia de comes e bebes. Normalmente essa celebração  ocorria no mesmo lugar onde se deu as bodas. Nesse caso aconteceria na casa do pai do noivo. O que não  ocorria de forma alguma era acontecer as bodas e depois de mais de 2 dias, uma semana ou período  semelhante ocorrer essa celebração.

Há  uma certa dúvida suscitada por alguns em dizer que no contexto das bodas a igreja é  a esposa. Existem versões  bíblicas que trazem a palavra grega nymphë como esposa, enquanto outras trazem noiva. Essas são possibilidades de tradução legítimas, mas, como toda a tradução, existem as que são melhores ou piores, mais adequadas e menos adequadas. Eu sugiro que os termos noiva ou esposa deve ser entendido de acordo com o costume de casamento hebreu. Este era realizado em três fases, como já informado. Entre a fase do noivado  e a fase de casamento os dois ficavam separados por pelo menos um ano. Não  tinham nenhum relacionamento  íntimo. A pessoa que reconhece que o casamento da igreja com Cristo é uma simbologia, deve interpretar essas passagens de acordo com o que a simbologia se refere. Fazer interpretação  sem considerar isso não  é  fazer exegese, mas eisegegue, esejeigue, eisegese, eisejegue, ou esegeigeigeigue kkkk !

A palavra grega"nymphë" significa a "noiva". O emprego do termo não se restringe ao contexto de uma cerimônia de casamento. Pode-se aplicar, igualmente, a uma "virgem", uma "mulher jovem", e uma "jovem esposa"." (W.Günther).

A noiva, pelas razões  já  elencadas, pode ser chamada de mulher (gyne) por causa das leis judaicas, que atribuía responsabilidades iguais a quem era casado ( ou seja, quem era esposo ou esposa). Mas, como informei, a noiva e a esposa eram diferentes e se referiam a ocasiões  diferentes do seu relacionamento com seu noivo.

O símbolo  das bodas denotam  a comunhão  íntima  e indissociável  de Cristo com a comunidade que ele comprou com seu próprio sangue.

Passagens bíblicas que retratam as bodas nos evangelhos não  se referem ao relacionamento de Cristo com a Igreja, pelo menos não  diretamente.

Um dos textos que podem ser usados para retratar essa simbologia com a igreja é Ap 19, nos primeiros versículos. Um texto mais claro do que o de Ap sobre as bodas com a igreja é  2 Co 11.2. Nesse texto Paulo diz: 

O mesmo zelo que Deus tem por vocês eu também tenho. Porque vocês são como uma virgem pura que eu prometi dar em casamento somente a um homem, que é Cristo. (NTLH)

O zelo que tenho por vocês é um zelo que vem de Deus. Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a ele como uma virgem pura. (NVI)

Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. (ARA)

Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo. (ARC)

O comentário Beacon diz o seguinte:

"Assim, a imagem que o apóstolo descreve de Cristo como o noivo, não só de toda a igreja (Ef 5.32) mas também  de cada congregação local em particular, reforça tanto a intimidade como a inviolabilidade da relação entre Cristo e os coríntios.

Paulo se vê  como um pai que, a maneira oriental, arranjou o casamento de sua filha com o mais nobre dos noivos. Como Lenski traduziu, ele apresentou os coríntios  como uma noiva " a um marido". Agora é responsabilidade dele guardar a conduta da noiva prometida até  a hora em que ele irá apresentá-la, como uma virgem pura ao noivo, no dia do casamento."

Sobre esse texto, depois da exposição desse comentário , eu não  quero falar mais nada. A menos que discordem que Paulo apresenta a igreja em figura de "noiva", acredito que as pessoas que interpretam dessa forma seriam os que não conhecem a cultura judaica ou que tentam desprezá-la. Adiciono a informação  de que os termos "preparar" e "virgem pura" indicam que o apóstolo está  se referindo a fase do casamento chamado de "noivado".

Sobre apocalipse 19 pode gerar alguma confusão. O texto está  no contexto da derrota da Babilônia. O escritor deste livro informa claramento que o relato acontece "depois destas coisas", ou seja, os acontecimentos dos capítulos 17-18. A cena desse capítulo passa da terra ( capítulos 6-18) para o céu. No céu é  retratado seres viventes glorificando a Deus pelos feitos do capítulo  18.  Surge no céu  uma "voz como de uma grande multidão" que conclama aleluias a Deus  por ter julgado a prostituta. Dentre esses seres é  apresentado os 24 anciãos. 

Sobre os 24 anciãos existem três  interpretações principais. A primeira diz que esses seres são seres angelicais. A segunda diz que são  uma junção entre os santos do AT e NT. A terceira identifica os 24 anciãos como sendo santos do NT. A descrição dos 24 anciãos aparece em Ap 4. A melhor interpretação  sobre os anciãos é  a terceira perspectiva, e isso por várias razões que não  será  considerada aqui ( visto que o texto já  está  grande). No meio dessa multidão está a igreja de Deus  apresentada como a noiva de Cristo. " Os santos são  retratados como a NOIVA do cordeiro, num contraste deliberado com a meretriz babilônia (Ap 19.7-9)."( John Marcos Lea, ênfase minha)

O relato dos versículos 1 a 6 são  uma descrição  da adoração  que a multidão, os 24 anciãos e os quatro seres viventes, apresentam a Deus. O versículo 7 a 9 é especialmente importante. Vamos lê-lo:

Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória, porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E disse-me: Estas são as verdadeiras palavras de Deus. (ARC)


Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos. Então, me falou o anjo: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E acrescentou: São estas as verdadeiras palavras de Deus. ( ARA)

Regozijemo-nos! Vamos nos alegrar e dar-lhe glória! Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro, e a sua noiva já se aprontou. Foi-lhe dado para vestir-se linho fino, brilhante e puro". O linho fino são os atos justos dos santos. E o anjo me disse: "Escreva: Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro! " E acrescentou: "Estas são as palavras verdadeiras de Deus". (NVI)

Alegremo-nos, e rejubilemos, e O reverenciemos; porque chegou o tempo do banquete do casamento do Cordeiro, e a noiva dele já se preparou. Ela tem permissão para usar o linho mais puro, mais branco e mais fino". ( O linho fino representa as boas obras praticadas pelo povo de Deus ). E o anjo ditou para mim esta frase: "Benditos aqueles que são convidados para a festa de casamento do Cordeiro". E acrescentou; "O próprio Deus declarou isto". (VIVA)

Interessante a opinião  de Ladd:

A passagem em Apocalipse 19.6-8 é, na verdade, um hino profético que antevê o casamento do Cordeiro com sua NOIVA, após Ele ter iniciado o reinado, e esse início não acontecerá até que Ele tenha vencido os reis da terra liderados pelo Anticristo (George E. Ladd, The Blessed Hope, pp. 99-102, ênfase  minha)

Sobre a  opinião  de Ladd, a única  coisa que discordo é a informação de que esse hino se dá  após Cristo ter iniciado seu reinado. Podemos ver claramente no texto que Cristo ainda iniciará  seu reinado, o que acontecerá após a batalha do armagedom, cujos efeitos e descrições podemos ver no capítulo 19.

Esse texto (Ap 19.7-9) é  claramente uma continuação do relato dos versículos  1 a 6. Não é  demostrado nenhuma mudança de cena. O relato flui naturalmente, mostrando  que se trata dos mesmos personagens, no mesmo lugar e sob as mesmas condições. O texto trata do casamento do cordeiro. Por eliminação, no céu não tem ninguém que possa se casar com o cordeiro. A não ser os Israelitas que morreram na antiga dispensação e os 24 anciãos (que representam a igreja). Mas, claramente, esse casamento não  se refere aos Israelitas.  Posso considerar que se refere à  igreja, visto esse evento acontecer no céu e o AT não  relatar nenhum  casamento que ocorreria com os Israelitas nesse lugar e sim na terra. Outra evidência de que se trata da igreja é  o fato de que Jesus  desce à  terra com um exército vestido de linho fino, branco e puro. Essa descrição é  semelhante a descrição da noiva do cordeiro.

Compare:

Foi-lhe dado para vestir-se LINHO FINO, brilhante e PURO". O linho fino são os atos justos dos santos. (Ap 19.8)

Os exércitos do céu o seguiam, vestidos de LINHO FINO, branco e PURO, e montados em cavalos brancos. (Ap 19.14)

O relato do versículo 8 não  pode se referir a anjos porque anjos não são retratados como os 24 anciãos. Os anciãos estão  coroados, cantam ( enquanto os anjos proclamam) e são  contados ( enquanto  os anjos não  são, Hb 12.22).

Bem, a partir daqui eu posso dizer que os versículos 7-8 tratam dos 24 anciãos. Portanto o termo noiva/esposa se refere a igreja. A única  forma de dizer o contrário  é  tirando o versículo  7 do contexto. Tirando esse versículo  do contexto a pessoa teria que reinterpretar todo esse capítulo, e esse feito custaria muito caro.

Dizendo-se tudo isso, poderia ainda ser afirmado que do versículo  8 para o 9 não há  nenhuma mudança  de perspectiva, de modo que o relato é  contínuo, tratando-se do mesmo assunto e dos mesmos personagens.

Sobre Ap 19.9 Chafer diz: "É preciso distinguir entre as bodas, que ocorrem no céu e são celebradas antes do retorno de Cristo, e a ceia das bodas (Mt 25.10; Lc 12.37), que ocorre na terra  depois  de seu retorno"

Ou seja, de acordo com essa interpretação, haverá uma festa de casamento no céu ( lembrando que toda a festa de casamento existia uma celebração) e uma festa de casamento na terra com a ceia desse casamento ( só  que esse segundo aspecto não  é descrito em Ap 19).

Poderia, por final, ser afirmado que a interpretação que afirma que Ap 19 não  trata das bodas do cordeiro em relação à  igreja é  uma interpretação irresponsável. A maioria esmagadora dos dispensacionalistas interpretam como tratando-se das bodas do cordeiro com a igreja. Até  o idealista Sam Hamstra Jr interpreta esse trecho de apocalipse como sendo uma referência  à igreja. 

Mas a interpretação se estabelece por meio da maioria? É  claro que não. Mas a partir do momento que você faz uma interpretação deslocada do que vem sendo interpretado tradicionalmente na história  e pelas escolas de interpretação  principais, aí  surge a dúvida: porque que só  você, hoje, chegou  a esse tipo de interpretação? É  possível  que isso ocorra? Sim, é possível, mas a fundamentação para tal interpretação terá  que ser dobrada. Não  se faz interpretação  das escrituras de forma isolada. No mínimo, se  alguém for estabelecer uma interpretação nova deve-se ao menos mostrar as razões  porque a interpretação tradicional não  é  a melhor.

Baseado nisso e no que eu falei ao longo desse texto, no capítulo  19.1-9 trata-se de um relato de adoração da igreja e de uma multidão. Segue-se a essa adoração o casamento de Cristo  com os 24 anciãos  e a celebração desse acontecimento, no céu, assim como acontecia a celebração do casamento hebreu na casa do noivo ou do pai do noivo ( nesse caso, Deus  pai).


O objetivo desse "artigo" são  dois: mostrar que o termo esposa é  uma alusão  ao casamento hebreu, e a fase que se trata é  a do noivado. Isso eu tentei mostrar nos versículos  que eu citei. Não  estou considerando todos os textos ( Tem gente que não  entende isso de forma nenhuma kkkk). O segundo objetivo foi demostrar que em Apocalipse 19. 1-9 o relato é  no céu sobre a igreja e outros seres viventes e que as bodas referidas ali é  as bodas de Cristo  com a igreja.

Sobre o primeiro objetivo, é  interesante que nenhum comentarista que consultei e nenhum escritor de renome trata as bodas de Cristo  com a igreja como a igreja já  sendo esposa. Imaginem o absurdo: a esposa (a igreja) se casando para se tornar a esposa do esposo. "Mas os Israelitas  consideravam o casamento e o noivado como sendo as mesmas coisas". Sim, eles consideravam assim só  na importância ou somente no aspecto legal, porque as duas coisas são  diferentes, senão  eles não  casavam....

Sinceramente, eu nunca pensei escrever um texto para tentar provar isso, visto ser esses temas tão óbvios  a partir de um entendimento da cultura e com um mínimo  de exegese. Mas acredito que isso seja o suficiente para demostrar a verdade bíblica, sob minha pespectiva, sobre esse assunto.